Demências e outras coisas

Comecei o ano com muito trabalho. Já tinha terminado o outro quase em burnout, mas o trabalho faz-me pensar também na minha missão nesta vida. 

Na profissão que escolhi encontro coisas fantásticas que me fazem ter alento e saber que o que escolhi foi o certo. Consigo fazer a diferença no mundo. Pelo menos no mundo de algumas pessoas. Mesmo que seja pouca, fico feliz por ver que o deprimido já sorri e até faz alguns disparates. Fico feliz por poder ajudar com estratégias e fornecer mais informação a quem me está muito próximo quando alguém que também me está muito próximo tem um episódio agudo de psicose num processo demencial. Fico feliz por dar alento aos pais do menino com autismo cujas esteriotipias estão a marcá-los tanto como a doença do filho. E quando consigo dar voz a alguém aprisionado num corpo deformado.

Alguns desafios que me aparecem no dia-a-dia fazem-me querer avançar mais e arriscar em novos projetos. (Mesmo quando quase entro em pânico e não sei para onde me virar, mas isso não posso dizer senão os clientes vão-se embora!)
Fazem-me também crescer e tornam-me melhor pessoa. Fazem-me dar mais valor aos que tenho perto e que estão bem. 

Aos que não estão bem, resta-me agradecer por estarem vivos e ter esperança que alguém possa fazer a diferença na vida deles como eu faço na de alguns.

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A tradição já não é o que era…

Pois, não! Mas nos fazemos a nossa!

Já há 4 anos que faço o bolo de natal dos açores. Receita oferecida com muito carinho pela minha ex-colega e amiga do coração que já a bisavó dela fazia em vésperas de natal. 

Este ano fez parte do calendário do advento tal como no ano passado. 

No dia 8 fizemos o abençoado bolo que até o tio de Lisboa come com grande satisfação. E fizémo-lo em família. A mais nova picou as frutas, pôs os ovos, juntou o açúcar à manteiga. O mais novo colocou o licor, a farinha e o fermento.

Parte da massa acabou numa forma de bolo inglês e a restante em formas de bolinhos individuais para oferecer.

A tradição é fazer o bolo no início do mês e comê-lo no dia de natal. Por aqui, as ofertas não chegam lá, mas há sempre um bocadinho que é saboreado nesse dia. 

No calendário do advento estão coisas como semear a ervilhaca e o trigo, montar a árvore de natal, enfeitar a entrada da casa, separar coisas para doar, fazer bolachas, ver luzes na rua e mais uma série de coisas para no final se contarem 25 pequenas coisas que nos fazem viver o natal, um bocadinho todos os dias. Até estarmos em família e  junto de quem nos mais ama.

4 anos

(Não, não é o quarto aniversário de nenhum dos mais novos. É o quarto aniversário de casamento.) 

É aquela altura do ano em que também agradecemos por termos alguém que nos atura todos os dias mais um bocadinho. 

4 anos em que nos cresceram (mais) cabelos brancos. 4 anos em que me apeteceu sair da casa diversas vezes. 4 anos em que descobri o que é fazer parte de um casal. 4 anos em que percebi que pode haver (dia sim, dia não) o felizes para sempre

Que descobri o que é acordar com flores no quarto (que foi apanhar ao jardim depois de me ter deitado já perto da meia noite), e que sabe bem ter um jantar preparado especialmente para mim.

Nem sempre estamos de acordo. Quer seja se a porta do quarto deve estar aberta ou fechada, quer seja se naquele momento em que um dos mais novos devia ter levado um ralhete (ou não).

Mas amo-te.  É o que muitas vezes penso… quando só me apetece deitá-lo pela janela. Ele sabe fazer sentir-me especial. Faz-me sentir amada e querida. 

E isso dá também sentido às coisas…

Há alturas…

Há alturas em que os teus filhos têm uma imaginação bem fértil ao ponto de duvidares do que eles dizem. Pensas muitas vezes que foram conversas com os amigos ou que querem ser como os amigos, e por isso aparecem coisas das quais não estás à espera. 

Mas às vezes as conversas repetem-se. Aí, começas a achar que até podem ter alguma credibilidade, apesar de continuar a não te fazer sentido nenhum.

Quando passam da repetição à persistência, tens de tirar a limpo. Porque estás tão incrédula que tens de ver para crer.

Pois, neste caso não foi bem “ver”. Foi mais cheirar. Cheirei as axilas da mais nova e ia caindo para o lado! 

Há alturas em que te apercebes que os mais novos lá de casa começam a não ser tão pequenos quanto estavas à espera e que afinal podem ser mais concretos do que pensas.

Amigos e amigos filhos de amigos

É raro o casal com filhos que não tem amigos com filhos. Combinam passeios, festas, piqueniques, cafés, idas ao parque e/ou à praia para poderem socializar e alienar-se um pouco de todas as responsabilidades educativas parentais enquanto as criancinhas saltam, pulam, correm, gritam e esfolam-se.

Mas não é só isso que é uma vantagem.

Os amigos filhos de amigos têm coisas dos amigos (não só pela parte genética mas também a socialmente aprendida e incutida) e convivem com os filhos como convivemos com os amigos.

E isso é bom. Porque os filhos acabam por gostar dos amigos filhos de amigos como gostamos, e pelas mesmas razões de que gostamos, dos amigos.

É toda uma nova geração de amigos com os mesmos valores e opiniões, mas mais refinados.

Back to school

E as ferias chegaram ao fim. Tirámos os bibes e os chapéus dos armários e substituímos por outros de outra cor.

Para trás ficaram as praias de água transparente, os gelados, as dormidas nos avós e em casa de amigos e primos, visitas a museus, repelentes de melgas, sandwiches de presunto e tomate. 

Recomeçam as responsabilidades de levar e trazer da escola, de ter de levantar cedo, de correr para chegar a horas e as rotinas fundamentais à saúde mental das crianças.

Acho que não há ninguém que ache que as férias são suficientes. Só se ouve “foram curtas” ou “souberam a pouco”. Não queria ser clichê mas a verdade é que também penso o mesmo. Não quero tomar decisões difíceis, ir trabalhar para um sítio que não é o ideal, ter de fazer bolachas para os miúdos comerem ao pequeno almoço. 

Se eu fizer birra, será que o tempo anda para trás? 

Presentes 


Há muitas vezes o hábito de oferecer presentes aos educadores e professores no final do ano. Na sua maioria uma porcaria qualquer sem gastar muito dinheiro para deixar o mimo e a nota de que estamos agradecidos pelo  facto de terem aturado a personalidade dos mais novos.

Este ano não comprei nada. 

A mais nova ainda por cima teve um professor, o que dificultava a tarefa de encontrar uma pulseira com uma medalha queridinha ou um gel de banho adequado. Ou  mesmo que fossem uns chocolates… Não seria o suficiente para marcar o quanto ela gostou de percorrer o segundo ano do primeiro ciclo com aquela figura que a ajudou a ultrapassar as dificuldades nas contas de multiplicar e lhe ensinou  mais de mil e uma coisas novas. 

Queria oferecer-lhe uma esferográfica que tinha na sua lata de canetas, um clip e um lápis sem ponta. Querida. Queria lhe oferecer coisas dela. Sugeri-lhe fazer-lhe um saco de pano onde poderia guardar sapatos ou mesmo roupa quando fosse de viagem e expliquei-lhe que iria ter muito mais valor do que qualquer presente comprado. Iria ser feito por ela. Ajudei-a (claro!). Alinhavei uma bainha para depois colocar um cordel e depois ela virou-se à máquina de costura. Estava longe de ficar perfeito, mas ela estava tão contente por estar a fazer um presente para dar ao professor. 

Consta que o professor gostou muito do miminho e achou o máximo por ter sido ela a fazê-lo. Eu fiquei super orgulhosa por ela perceber o significado do gesto e não ter sequer pedido para lhe comprar o que quer que fosse.

Quanto ao mais novo,  já não tive coragem de pô-lo a fazer o presente sozinho.

 A educadora dele irá regressar a Lisboa depois de  se ter dedicado a 200% à sala do bibe verde alface. Adorou (e adora) estar na ilha e achei que seria adequado levar um bocadinho da ilha com ela. Confesso que a ideia não é original e mais uma vez recorri ao pinterest para me safar. Comprei uma moldura e colei as pedrinhas que o mais novo apanhou na praia de Água de Alto, em forma de um adulto e várias crianças à volta, sobre um fundo verde alface. Ele fez ainda um desenho no papel pardo onde embrulhàmos a moldura para lhe entregar com muito carinho.

Ainda não vi a educadora, mas espero que tenha gostado…